Anúncio da ANJ erra ao colocar Facebook e Google como concorrentes

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Por ocasião do Dia da Liberdade de Imprensa, comemorado ontem, 3 de maio, a ANJ (Associação Nacional de Jornais) veiculou o anúncio acima que mereceu críticas nas redes sociais. É tudo esquisito na peça:

– Citar o estado Islâmico (um tema distante dos leitores brasileiros)

– Usar o verbo “combater” (não seria melhor interpretar, informar?)

– Citar Google e Facebook de forma negativa (soa mesquinho demais)

Esta citação do Google e do Facebook é que me chamou a atenção e motivou a publicação deste post. Como escrevi no meu Facebook, me parece medo do desconhecido. Os sites dos jornais dependem do Google e do Facebook e se tornaram mais populares com a ajuda dos dois e das demais redes (Twitter, YouTube…). Por isso, considero que o anúncio peca pelo tom.

O que os jornais têm que compreender é que as redes sociais servem de gatilho no interesse dos leitores por um determinado assunto. Pelas redes, o leitor fica sabendo. E vai querer saber mais nas fontes em que confia. Neste caso, o que conta não é por onde ele vem, mas se o site do jornal tem qualidade para atender as expectativas deste leitor-navegador.

Você sabe o que o leitor quer?

E medo do Google? Até hoje não entendo. Estar no Google News, por exemplo, é uma estratégia relevante. Isso, claro, se o dono do jornal quiser levar leitores para seus sites. Bastar olhar os números de audiência. Esperar que o leitor entre no site digitando o endereço da página inicial do site é um erro. Ao contrário do jornal impresso, a leitura nos sites não começa pela capa. Já foi esse tempo. Ou o leitor cai na página da notícia que buscou ou viu a chamada nas redes sociais, ou acessa diretamente nas seções que lhe interessa.

O calo dos jornais

Participei das duas últimas edições do Congresso Brasileiro de Jornais, evento promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) a cada dois anos e que reúne donos, executivos e profissionais de veículos impressos de todo o país. Nos dois, pude acompanhar palestras e debates que mostravam preocupações e anseios dos jornais com relação à internet.

Na edição de 2012, o clima do CBJ era de aflição misturada com uma certa euforia porque o meio estava “excitado” com o modelo paywall, em especial o que foi implantado pelo New York Times. Ou seja, em meio à concorrência com os portais de conteúdo, arqui-inimigos dos jornais, surgia uma fórmula mágica para valorizar o conteúdo e viabilizar comercialmente os sites dos veículos.

Não por acaso, Michael Greenspon, na época, gerente-geral do Departamento de Serviço de Notícias do New York Times, fez a palestra de abertura do CBJ 2012. Registrei os principais pontos da palestra dele no Coluna Extra.

Paywall
O sistema implementado pelo Times no digital, diferentemente dos sistemas adotados pelo inglêsThe Guardian (baseado em open journalism) e pelo Washington Post (baseado em crowdsourcing) – dois sistemas também inspiradores, hoje, para o setor jornal –, fundamenta-se em assinaturas digitais (paywalls) em plataformas diversas, conforme as necessidades dos assinantes.

Qualidade do conteúdo
Michael Greenspon acredita que o jornalismo pode ser majoritariamente pago por audiências que valoriza uma “elevada qualidade de conteúdos”. “O primeiro passo foi reestruturar o negócio, reduzindo custos, preservando, porém, a redação central”, diz Greenspon. “Por meio de pesquisas concluímos que a qualidade do conteúdo jornalístico interessa aos ‘cidadãos do mundo’ e, mais que isso, é um grande negócio.”

Do leitor
As pesquisas feitas pelo jornal indicaram que cerca de 40% da audiência do digital estava disposta a pagar por conteúdo online. “Hoje, 75% dos nossos assinantes no impresso usam (e pagam) pelo digital também”, revelou Greenspon. Isso ocorreu em um intervalo de tempo relativamente curto. Em 2009, quando surgiu o iPad, o Times se concentrava apenas na web. “Ficou evidente a disparidade entre o potencial dos tablets e o potencial dos smartphones, e apostamos nessa diferença.”

Um novo Times
O Times passou de “jornal tradicional em papel que também publicava no online” para “serviço de notícias e notícias sindicadas” com atuação em múltiplas plataformas e atento ao público majoritariamente jovem dos usuários de redes sociais.

Tudo muito bonito, mas dois anos depois, em maio de 2014, caiu na rede um relatório interno que mostrava que a estratégia digital do NYT não era assim uma Brastemp.

 Veja no Observatório da Imprensa:

Relatório do ‘NYT’ expõe falhas na transição para o digital

Confira a íntegra do relatório

Na edição 2014 do Congresso Brasileiro de Jornais, foi a vez da ANJ descobrir a pólvora: com a internet, os jornais são produtos multiplataforma. Veja o vídeo da campanha lançada naquela ocasião.

Veja também o encarte especial sobre o CBJ 2014, do qual fui um dos editores, produzido pelo Notícias do Dia, e que traz os principais pontos apresentados no evento.

Óbvio, claro como água. E até por conta disso, estranhei o tom do anúncio de ontem que inclusive traz o slogan deste posicionamento (“No papel ou no digital, nada substitui o papel do jornal”). Ok, os portais de conteúdo não estão mais jogando sozinhos no campo adversário dos jornais. Estão tabelando com as redes sociais também. Mas se o jornal sabe da sua importância e que está aqui, lá, em qualquer lugar, seja no papel, no computador, no tablete ou no smartphone, por que “queimar” Google e Facebook?

Google e Facebook são mais aliados do que inimigos, ANJ. E se o verbo é mesmo combater o estado Islâmico, aí o anúncio brincou: cadê o Twitter?


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