Conteúdo colaborativo: O desafio de entender o público para receber o que se quer

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A Globo está com um mico na mão: a campanha O Brasil que eu Quero. E não é só pela quantidade exagerada de vezes que o vídeo “tutorial” foi exibido nos telejornais nacionais e regionais da emissora. Mas pelo resultado da ação. Os poucos vídeos enviados pelo G1 estão longe de seguir o roteiro proposto pela Globo. Ok, o celular está deitado (na horizontal), mas o cenário não é o ponto turístico que representa a cidade. O cenário é o lixão, a obra inacabada, a estrada esburacada… Era isso que a Globo queria mostrar?

O modelo de ação escolhido pela Globo não é novo. Muito pelo contrário. Criar um canal online e chamar a participação do público é antigo, pré-redes sociais. Não duvido que a ideia da Globo é boa. Mas em tempos de Facebook e, por consequência, de “empoderamento” do público, nem a Globo consegue domá-lo.

Ele tem e quer usar a autonomia de dizer e mostrar o que pensa, do jeito que bem entender. Por isso, o didatismo dos vídeos dos repórteres e apresentadores não precisava querer propor (ou impor) o cenário, ainda que eu entenda a necessidade da TV ter imagens limpas para ilustrar o que é dito.

Como resposta, pelos vídeos exibidos até agora, o público preferiu fazer jornalismo e ilustrar com imagens relacionadas ao que está dizendo. Faz muito mais sentido dizer que “quero um Brasil com menos desperdício de dinheiro público” e mostrar atrás uma escola inacabada do que gravar com a figueira da Praça 15 (ponto turístico de Florianópolis) de fundo. Não é? Se fosse dica de turismo…

Outro ponto que considero equivocado na ação da Globo é propor um tema muito amplo para um conteúdo colaborativo. Deixa brecha para essas participações que fogem do conceito pensado pela emissora, mas principalmente, na minha opinião, dificultam o engajamento. É diferente de quando o foco é mais fechado, a proposta é mais segmentada. Mais local e menos global (sem trocadilho).

Por isso, em situações como enchentes ou a neve histórica em Santa Catarina de 2013 geram tanta participação. No caso da neve, lembro que um livro foi editado pelo Grupo RIC / Notícias do Dia usando muitas das fotos que a gente recebeu pela plataforma colaborativa Eu Sou o Repórter. Ou seja, o tema precisa “bater” no público, sendo relacionado ao seu dia a dia e comum a uma comunidade ou a um grupo determinado de pessoas.

A Globo acerta em criar seu próprio canal para a participação e não recorrer a uma plataforma de terceiros. O problema é não levar em conta que o público está cada vez mais acostumado a se relacionar com a mídia via WhatsApp – o exemplo do rádio é o mais evidente. Diria que mais do que acostumado, o público está ficando acomodado e não importa se o meio é rádio. Ele quer participar compartilhando texto, foto, áudio e vídeo, que as emissoras têm aproveitado em seus canais digitais.

Entendo que seria impraticável a mecânica para o jornalismo da Globo adotar o WhatsApp numa ação como está dO Brasil que eu Quero. Talvez seja o caso de pensar num aplicativo próprio com o objetivo de receber conteúdo colaborativo. Mas de qualquer forma há que se considerar o comportamento do público para trazê-lo para a ação – fazendo um selfie ou com a ajuda de um amigo a dois passos de distância…

O melhor meme

A foto do celular deitado na cama, sob cobertas, é o melhor meme resposta para a campanha de divulgação do tutorial de participação nO Brasil que eu Quero. O autor é Glauber Macario, que divulgou a foto em seu Twitter.