“Diversificar as fontes de renda é uma necessidade e tem que ser considerada desde o início”, diz pesquisadora

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A jornalista Patrícia Gomes passou os últimos meses estudando modelos de negócio no jornalismo no Brasil e o resultado é um documento – disponível no Medium, em inglês – que apresenta cases que ajudam a apontar caminhos para quem quer empreender na área. O estudo “Novos modelos de negócios para o jornalismo – como dez organizações brasileiras estão fazendo dinheiro – ou tentando” foi apresentado por ela como trabalho de mestrado em Liderança e Estratégia de Mídia, pela Medill School of Journalism da Northwestern University, em Chicago (EUA).

Os dez negócios analisados pela jornalista foram: BrioJOTAEscola de DadosCatraca Livre, Papo de Homem, Ponte, Mural,  J++InfoAmazônia e Porvir. Nesta entrevista exclusiva ao Primeiro Digital, com base nos cases estudados por ela, Patrícia analisa o empreendedorismo no jornalismo e também o perfil do jornalista empreendedor. “O perfil varia bastante em idade, anos de experiência e até na questão socioeconômica”, diz a pesquisadora. “O que une esses profissionais todos é a clareza de que tem alguma área no jornalismo que não está sendo bem coberta e que eles podem fazer diferente”.

PRIMEIRO DIGITAL – Como definir o modelo de negócio mais adequado para um negócio em jornalismo? A tendência é eleger um único modelo de largada ou já diversificar desde o início?

PATRÍCIA GOMES – Acho que o ponto principal do meu trabalho foi perceber que não existe mais isso de “modelo de negócio mais adequado”. Por muito tempo a dobradinha assinatura + anúncio resolveu a questão. Mas agora isso tem se mostrado insuficiente.

O que eu consegui perceber é que o perfil da iniciativa faz com que algumas fontes de recurso sejam mais frequentes que outras, mas os empreendimentos financeiramente mais sólidos são aqueles que conseguem ir além do que seus pares estão fazendo.

Vou dar dois exemplos.

Nos casos de startups especializadas em um nicho (o que tem sido muito comum e bastante promissor), uma fonte de recurso para além da dobradinha assinatura e anúncio tem sido a “venda de inteligência”, que são relatórios especializados para empresas.

Jornalismo de causa, que são mais frequentemente organizados como ONGs, dependem de algum tipo de doação, mas têm uma enorme possibilidade de criar o que se chama nos Estados Unidos de “memberships”, que são clubes exclusivos para aqueles que compartilham do amor à mesma causa.

Diversificar as fontes de renda é uma necessidade e tem que ser considerada desde o início, mesmo que depois o empreendedor perceba que aquela fonte de renda não é uma boa aposta.

PRIMEIRO DIGITAL – Como o jornalista constrói seu perfil empreendedor? Em geral, baseado no levantamento feito por você, em que ponto da carreira o jornalista decide empreender?

PATRÍCIA GOMES – Nos casos que eu estudei, eu vi que a vontade de empreender pode acontecer em várias fases da carreira. No caso da Ponte, por exemplo, os jornalistas que se reuniram para lançar a iniciativa são todos repórteres em meio de carreira e renomados.

No caso do JOTA, eram jornalistas especializados em um assunto – Judiciário no caso, que vinham tendo cada vez menos espaço para fazer coberturas legais em seus veículos de origem. Neste caso, eles têm alguns anos de experiência, mas são mais jovens que os da Ponte.

No caso do Mural, os jornalistas que formam a rede são majoritariamente estudantes de jornalismo. A motivação deles é mais uma necessidade de ver matérias sobre os lugares de onde moram.

Como você vê, o perfil varia bastante em idade, anos de experiência e até na questão socioeconômica. O que une esses profissionais todos é a clareza de que tem alguma área no jornalismo que não está sendo bem coberta e que eles podem fazer diferente.

medium

 

PRIMEIRO DIGITAL – Qual o primeiro passo para empreender no jornalismo?

PATRÍCIA GOMES – Empreender no jornalismo no Brasil é mais difícil do que em outros países pelo simples fato de que empreender, em geral, é mais difícil no Brasil. A gente tem um monte de burocracia que dificulta a abertura e o início de empresas e o ambiente da cultura do risco, tão comum no Vale do Silício, não é lá muito comum no Brasil.

Quando falamos especificamente de jornalismo, as dificuldades são agravadas ainda pela falta de um ecossistema que suporte o empreendedorismo. Não temos fundações que consistentemente financiem iniciativas de mídia, por exemplo.

Disse tudo isso para dizer que o primeiro passo para empreender no jornalismo, na minha opinião, é saber que o que vem pela frente não vai ser fácil. É estar mentalmente aberto a sair da zona de conforto, é aprender coisas novas de várias áreas do conhecimento (design, programação, vendas, marketing e por aí vai), é saber que bons repórteres não necessariamente darão bons empreendedores, é buscar referências, é conversar com gente.

PRIMEIRO DIGITAL – Qual o principal ingrediente na formação do jornalista empreendedor?

PATRÍCIA GOMES – Bom, aqui eu acho que tem duas coisas. Se você está perguntando de formação no sentido formação acadêmica, eu diria que os cursos de jornalismo estão formando pessoas que muito mal são tecnicamente capazes de se encontrar na mídia tradicional. Numa abordagem mais inovadora, de empreender a própria carreira e ideias, então, nem se fala.

Aqui nos Estados Unidos, os cursos de jornalismo estão começando a incluir disciplinas que ensinam empreendedorismo e como vender suas pautas para diferentes veículos (já que ser frila é um caminho muito comum).

No Brasil ainda não vejo essa preocupação muito clara. Na academia, talvez o principal ingrediente seria apresentar outros caminhos que não redações tradicionais como possibilidades de carreira.

Se você está me perguntando de formação num sentido mais geral, e talvez isso sirva também para os estudantes de jornalismo, eu diria que um ingrediente fundamental na formação do empreendedor é o acolhimento do risco. Empreender é arriscar, sempre.

PRIMEIRO DIGITAL – De que forma exemplos como os analisados por você podem influenciar veículos de maior porte ou ligados à mídia tradicional, como os sites de jornais e TVs?

PATRÍCIA GOMES – Acho que a principal contribuição dessas iniciativas é forçar uma cobertura melhor pelo princípio da concorrência. Um veículo especializado tende a ter melhores condições de cobrir casos em suas áreas. Isso coloca neles o papel de geradores de pauta, de influenciadores da agenda, e obriga os veículos tradicionais a correrem atrás do furo que o pequeno deu. Isso já tem acontecido e é muito positivo para o jornalismo.

Confira o estudo de Patrícia Gomes no Medium

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