Três aulas sobre microjornalismo

Padrão

No último sábado (23), a Ana Brambilla ministrou a segunda das duas aulas sobre microjornalismo colaborativo que ela deu no curso de pós-graduação em jornalismo digital do ISCOM, aqui em Florianópolis. Tive a oportunidade de acompanhar as aulas e a Ana, com toda a sua experiência, ajudou a esclarecer de forma mais detalhada um pedaço importante da crise que vive o jornalismo nos dias de hoje: o distanciamento entre o que é produzido e publicado com aquilo que realmente interessa ao público.

A Ana propôs um exercício interessante com a turma. Um desafio: listar tarefas do dia a dia e causas ou assuntos do interesse e depois analisar de que forma 10 notícias publicadas em sites impactavam na nossa vida. Ligar os pontos com a parte da análise foi difícil. Mas da lista de acontecimentos diários – no nosso microuniverso – a Ana mostrou que com foco bem ajustado os veículos poderiam extrair boas pautas. E é verdade.

No domingo, comprovei na prática, com uma terceira aula sobre microjornalismo, desta vez com o seo Vadinho.

Simplicidade e sabedoria

Fui almoçar (com minha esposa Carla, minha amiga Angelita e a filha dela, Marina) no restaurante que leva o nome dele e que funciona numa casa construída há quase 50 anos à beira da praia do Pântano do Sul, uma das mais conhecidas de Florianópolis. Almoçar no restaurante do seo Vadinho é uma das experiências mais recomendadas para quem é daqui ou para quem nos visita. Está sempre lotado, pode levar horas para ser a atendido, mas dificilmente você vai sair de lá decepcionado.

É tudo muito simples e sem frescura. Não tem cardápio no seo Vadinho. O prato é único: arroz, feijão, pirão, salada, batata frita, peixe em posta, peixe desfiado e filé de peixe à milanesa (e pode repetir…). Lá, o cliente não pede o cardápio, mas pergunta o que tem hoje: cação ou viola desfiado? E tudo o que é preparado vem dali mesmo, do mar do Pântano do Sul, filosofia do seo Vadinho que faz do lugar um restaurante atípico em comparação a outros estabelecimentos de Florianópolis.

Sempre atencioso com os clientes, seo Vadinho faz questão de circular pelo restaurante. E não faz só RP. Ele parou algumas vezes para falar com a gente enquanto esperávamos nossa mesa e depois, nosso pedido. E quando estávamos saboreando nossa refeição, ele quis saber se queríamos mais alguma coisa. Em todas as vezes, foi, como sempre, uma aula de simplicidade e sabedoria. Você até pergunta, mas bom mesmo é ouvi-lo.

Seo Vadinho falou da preocupação em atender todo mundo sempre bem e com atenção – até ampliou o espaço com um segundo piso para servir de sala de espera. Quem “não é de casa” pode estranhar as características do “não-cardápio” e do atendimento informal dos garçons. Quem já é, curte até o tempo de espera ou a demora sincera do pedido. E ainda faz festa quando a comida chega.

Quando passou para ver se estava tudo certo com nosso pedido, seo Vadinho contou do aumento nos custos do feijão e da batata (pagava R$ 75,00 o saco da batata e agora paga R$ 250,00). Quando pedimos para ele mais uma porção do peixe desfiado (um dos clássicos da casa), ganhamos, mas ele contou que está preocupado com a escassez de alguns peixes ali no Pântano do Sul. Já tem peixe faltando, muito provavelmente por causa da pesca predatória. Domingo da outra semana, ele teve que racionar a porção do peixe desfiado (feito com cação, arraia ou viola) – uma situação que não deixou seo Vadinho feliz. E tomara que não volte a acontecer.

Quantas pautas dá para tirar deste almoço no restaurante do seo Vadinho?

restaurante do seo Vadinho

Pauta bônus 

O estacionamento de carros na faixa de areia do Pântano do Sul foi proibido. Há uma placa logo na entrada, mas ainda assim muitos motoristas no domingo pararam seus veículos onde não deveriam. Alguns foram multados. E quem cometeu a infração ainda pôde ter ouvido o comentário feito por um morador no meio da rua principal do Pântano: “Paga a conta do restaurante, mas não quer pagar 10 contos no estacionamento”.