Um mercado para jornalistas, mas vamos com calma

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Nos últimos dias, conversando com três colegas, em diferentes ocasiões, ouvi a mesma coisa deles, que trabalham com assessoria de imprensa e marketing digital: o mercado de Inbound Marketing está em busca de jornalistas para a produção de conteúdo e agora o perfil não é mais o recém-formado. A ideia é atrair profissionais mais “cascudos” (expressão usada por um dos meus colegas), certamente com mais vivência e background para produzir conteúdos em série para um mesmo cliente.

Como representante da ala dos jornalistas cascudos e que já trabalha com conteúdo para marketing digital (oficialmente desde 2010 e mais efetivamente desde 2015, como mostra meu portfólio), sou obrigado a concordar que o mercado caminha para esta mudança no perfil. Muitas agências digitais (e assessorias de imprensa também) optaram pelo jovem jornalista (na maioria das vezes ainda na condição de estagiário) pelo custo, pela novidade para os clientes e por levar em conta que o conteúdo do Inbound Marketing, como segue um modelo propagado por empresas como a Resultados Digitais, não precisaria de muito esforço para ser produzido.

Escrevo por estar tanto no lado de quem produz quando no de quem edita conteúdos deste tipo: o buraco é mais embaixo. De nada adianta seguir modelos, se não há profundidade nem qualquer tentativa de criar empatia e capturar a atenção e o interesse do leitor.

Esses conteúdos nascem de olho no Google. O objetivo é responder perguntas e, em tese, atrair quem já possui interesse nos assuntos abordados. O que parece estar ocorrendo agora é que o conteúdo precisa realmente ser mais encorpado e não pode ser mais fruto apenas de uma pesquisa por referências na internet. Só caçar clique não resolve a vida de quem quer capturar dados ou leads, como se diz no jargão do marketing digital.

Quem escreve precisa acrescentar algo mais à fórmula do post de Inbound. Algo que possa gerar identificação com quem irá ler o texto. Não é o caso de humanizar por humanizar o conteúdo, mas de torná-lo mais real, mais próximo da realidade.

Mês passado escrevi um texto que nasceu muito nessa linha. Muitos dos trechos foram baseados em fatos reais ou em situações do meu dia a dia com minha esposa que ajudaram a reforçar a importância do que estava sendo dito, apresentado. Não encontrei nada daquilo em uma pesquisa no Google. Encontrei na minha própria história.

Isso reforça um pouco o que repito em muitas conversas, cursos e palestras que faço: vivência é a chave para o trabalho com conteúdo para internet. Como digo para os colegas das agências com as quais trabalho, eu costumo sofrer quando produzo os conteúdos. Mas sofro porque de fato me preocupo em atender as características do texto de Inbound, mas especialmente por querer que o leitor termine a leitura satisfeito, com a sensação de que acrescentou algo sobre aquilo que ele estava buscando. E disso, que ele siga sua jornada, consumindo outros conteúdo até se tornar cliente da empresa que contratou o serviço de Inbound.

Não é release nem reportagem

Não vou entrar na discussão se produção de conteúdo Inbound é ou não jornalismo. O que sei é que sendo jornalista, me sinto, como já disse e até foi registrado em livro, um profissional da informação. Domino as habilidades para escrever posts e e-books que tenham objetivos claros de ensinar, apresentar problemas e soluções e estimular a compra de produtos e serviços. E assim explorar as oportunidades de um mercado em crescimento.

Para quem é jornalista, que por acaso se animou com o que eu escrevi, vá com calma. Se nunca fez nenhum trabalho de Inbound Marketing, informe-se primeiro. Você não será contratado para escrever releases nem reportagens. Como bem disse meu amigo Rogério Mosimann, citando um palestrante, o texto de Inbound é meio e não fim, como é o de uma reportagem.

Por isso, colega, prepare-se, se quiser investir nesse mercado. E esteja atento também para entender como ele funciona e não apenas como é o trabalho. A lógica de quem contrata é produzir com o menor custo possível. Por isso, uma das formas de começar é apostando no ganho em escala. Mas como pode estar virando a chave para a entrada de profissionais mais experientes, será quase que inevitável um rearranjo do mercado em termos de remuneração até para que seja atrativo para aquele profissional que deixou as redações.

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