Sobre “Jornalismo do tipo mata a cobra e mostra o pau”

Reprodução de As Aventuras de TinTin, personagem criado pelo belga Hergé
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por ALEXANDRE GONÇALVES

Sobre meu comentário Jornalismo do tipo mata a cobra e mostra o pau, publicação na edição 24 da coluna Mapa Mental do Primeiro Digital, meu amigo Lúcio Lambranho me enviou as seguintes considerações:

Checagem é realmente muito importante, mas acho que falta critério nos temas que estão sendo checados.

Agora nem tanto, mas nas eleições foram checar mamadeira de piroca e um monte de bobagens nitidamente falsas que acabam sendo turbinadas quando gastaram tempo e publicações com coisa irrelevante.

E as agências surgiram muito também porque as redações encolheram e falta experiência nos times. Como diz um certo colega sobre essa coisa toda e tantas grifes. Jornalismo é investigativo, se não é, não é Jornalismo.

Lúcio fala com propriedade quando o assunto é jornalismo investigado e jornalismo de dados. Exemplo disso é sua participação na série de reportagens Farra das Passagens, publicada em 2009 pelo site Congresso em Foco, além de desenvolver também iniciativas próprias à frente do seu Farol Reportagem, aqui em Santa Catarina, e focado na produção de reportagens de impacto social a partir de dados públicos.

Aliás…

Vem aí o livro que conta em detalhes todo os bastidores da cobertura da Farra das Passagens, que revelou como deputados e senadores viajavam no Brasil ou pelo mundo a passeio com suas famílias, eleitores e parentes sem pagar a conta. O livro, assinado por Lúcio e Eduardo Militão, Edson Sardinha, mostra ainda como essa verba alimentou um mercado ilegal de bilhetes envolvendo funcionários dos gabinetes parlamentares e donos de agências de viagens.

Enquanto o livro não chega, reproduzo a seguir um depoimento que o Lúcio me enviou e eu publiquei em maio de 2009 no meu antigo blog, o Coluna Extra. Ele conta como surgiu o que foi considerado o furo jornalístico daquele ano.

Chegamos nessa pauta em setembro de 2008. Um ex-assessor, que já respondia a processo por venda de passagens, reaparece na Câmara, mas desta vez, em outro gabinete. O deputado ficou sabendo do envolvimento dele pelo site e o demite.

Publicamos então a primeira matéria. A partir daí muita gente resolveu denunciar.

Na foto, Eduardo Militão, Edson Sardinha e Lúcio Lambranho na entrega do Prêmio Embratel de Jornalismo de 2009 pela série “Farra das Passagens”

O assunto era voz corrente nos gabinetes. A farra era total, a cota tinha virado salário indireto para assessores e dinheiro, pois o valor foi sendo sempre reajustado e sobrava crédito demais.

Esse é o tempo do início da apuração. Resolvemos ir juntando aos poucos. Várias fontes foram estabelecidas. Em algumas uma informação levava a outra e o mapa foi sendo criado.

A coisa começou a esquentar quando vimos que um “colaborador” do Fernando Sarney (filho do presidente do Senado, José Sarney) tinha usado passagem da Câmara. Marco Antônio Bogéa (o colaborador de Fernando Sarney) levou uma mala e foi seguido no voo de Brasília até São Paulo pela Polícia Federal. É o relatório da Operação Boi Barrica. Fui na parte que interessava para destampar o ralo.

Aí as fontes começaram a abrir as informações. Aos poucos e mais recentemente um pouco mais. A série não foi planejada, foi acontecendo, sendo decidida no calor do dia anterior, mas sendo preparado com muita antecedência. Como funcionava, o mercado paralelo de passagens, parentes e família. Viagens para o exterior…

Trabalhei sozinho no início, mas esse trio (além do Lúcio, Eduardo Militão e Edson Sardinha assinam as reportagens) sempre se ajuda. O trio já tinha acontecido em levantamentos muitos grandes, mas se montou de novo quando o material da farra foi aumentando.


Crédito ilustração: Reprodução de TinTin, o jovem repórter investigador criado pelo belga Hergé.

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