Quando e como fazer concessões no jornalismo local

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por ALEXANDRE GONÇALVES

Sou defensor, entusiasta e “o chato” do jornalismo local e hiperlocal. É a escolha mais lógica para os veículos que querem se diferenciar, atrair público e anunciantes e gerar receita com um modelo sustentável, com tamanho e infraestrutura adequados ao tamanho do mercado e à perspectiva de faturamento.

Não adianta, em meio a tantos sites e portais na internet, querer ser apenas mais um e “viajar” acreditando numa suposta relevância ao querer dar tudo e não ter foco na sua localidade. A internet eliminou fronteiras, mas não a importância de ser cada vez mais próximo do público.

Tem que ser realista. Mas infelizmente tem muito veículo que se diz local e até produz conteúdo com esse foco, mas com frequência, na busca por likes, enfileira em suas redes sociais chamadas de assuntos distantes da realidade de seu público.

O problema é saber medir o grau de relevância do conteúdo compartilhado. Tem muita bobagem caça-clique. Obviamente, um site local é um site com foco local, mas não é um site míope. Assuntos de impacto nacional, por exemplo, não devem ficar de fora da pauta. Mas é preciso critério para saber quando fazer concessões e também como fazer, como organizar a publicação do “conteúdo haole” para que não descaracterize a linha editorial.

Quando fazer concessões

Abrir mão do localismo por miudezas não faz sentido. As redações devem ter critérios muito claros para decidir “manchetar” assuntos de fora. Política nacional e tragédias de impacto merecem atenção e, eventualmente, até algum investimento.

Lembro, por exemplo, que na tragédia da Boate Kiss, ocorrida em Santa Maria (RS) na madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando morreram 242 pessoas, uma equipe do Notícias do Dia, aqui de Florianópolis, se deslocou até a cidade gaúcha para cobrir in loco. E o ND produziu uma das capas mais destacadas sobre a tragédia.

Recentemente, outro exemplo de concessão no localismo pode ser visto quando da explosão do depósito no porto de Beirute, no Líbano. Os veículos nacionais foram em busca por brasileiros que estavam no local. Os locais fizeram o mesmo e trataram de um assunto tão distante entrevistando brasileiros nascidos no estado de origem desses canais.

A GaúchaZH (Zero Hora / RBS), de Porto Alegre, adota tanto essa estratégia que até vira motivo de piada. Mas buscar um gaúcho que esteja envolvido ou nas proximidades de qualquer tragédia que ocorra no mundo faz todo sentido e insere a pauta no contexto local.

Como fazer concessões

A melhor maneira de fazer as concessões é organizar os espaços para falar de outro tema fora da pauta local. Na minha opinião é muito ruim misturar os conteúdos. Por exemplo, um acidente numa rodovia de São Paulo, se vira pauta num site local de Florianópolis, não pode ficar na editoria Trânsito.

Por isso, falando em jornalismo digital, uma das formas de fazer a cobertura “além fronteiras” pode ser criando uma seção ou até mesmo um blog dedicado a isso. E deixar bem caracterizado que ali os assuntos são outros que não o lanço de tainha em Florianópolis. Comece pensando em nomes para batizar a editoria/blog (Radar NOME DO SITE, Gira Mundo, Pelo Mundo, Giro Brasil, entre outros).

Como nasceu o post

A inspiração para este post veio da TV. O telejornal local do SBT Santa Catarina fugiu de sua pauta local para divulgar a transmissão do Gre-Nal pela Libertadores (foto em destaque). Como futebol não faz parte do DNA da emissora (os times catarinenses – nem os de Florianópolis, de onde o telejornal é exibido – não têm cobertura), bastava anunciar que haveria transmissão. Ficaria mais justo duplamente com a linha editorial (pelo localismo e pela falta de interesse pelo futebol).

Mas a emissora preferiu se comportar como uma sucursal. Criou plateia virtual de gremistas e colorados, interatividade sobre o jogo, tocou o hino dos times de Porto Alegre e até fez entrada ao vivo direto da capital gaúcha. Tudo isso ocupou espaço e tempo que poderia ser dedicado para assuntos locais.

A emissora pode até justificar o conteúdo especial dizendo que aqui em Santa Catarina tem muito gaúcho e que foi um caso excepcional, mais “merchan” que jornalismo. Não foi o que pareceu e poderia ter sido dado um outro tratamento sem fantasias nem um súbito interesse por futebol.

 

Foto: Reprodução YouTube

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