A reação ao signwall do NSC Total e a importância de qualificar a base de leitores

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Há pouco mais de um mês, em 13 de fevereiro, a plataforma digital do Grupo NSC, em Santa Catarina, implantou o signwall, modelo em que é necessário ter um cadastro para ter acesso ao conteúdo gratuitamente, mas limitado. Com isso, conforme divulgado, a cada mês, o leitor tem acesso livre a três notícias. Ao acessar o quarto conteúdo, ele é convidado a preencher um cadastro para continuar navegando.

A medida vale para o portal NSC Total e para os sites dos jornais Diário Catarinense, A Notícia, Santa e Hora de Santa Catarina. Mas desde sua implantação, a novidade vem sendo alvo de críticas, com leitores questionando a medida com os mais variados (e muitas vezes descabidos) argumentos.

Veja a seguir uma compilação de alguns dos comentários.

Vai acabar com o site. É só tirar dos favoritos e colocar outro. Não faltam sites com acesso livre por aí.

Ficou uma bosta. Ter que se logar toda vez que vai ler uma matéria

Pura besteira. Não assinei o jornal físico e não vou me cadastrar, pois o jornal é uma porcaria,

Em em pleno 2019 e cobrar pra ler notícias e esquerdistas comentando?

Acaba de perder mais um frequentador do site. Tchau pra vocês!

Lixo. Vou cadastrar porra nenhuma!!!

Lixo da “poha”. Cadastra minha mão na tua cara!

Nossa, gostava tanto de ler as notícias. Não sei porque essa idiotice de fazer cadastro, Affff ridículo.

O cadastro é pra pagar pra ler. Todos os jornais estão ficando assim. Já não chega as publicidades na cara da gente, tem que pagar pra ler!

Tem outros que não cobram. Põe no google. Cobrar pra ler matéria é o fim da picada. É a morte desse grupo.

Se é para não deixar ler a reportagem então nem anuncie. Que droga, você começa a ler e logo é interrompida porque não é assinante.

Não vou pagar nada… Sempre tem a notícia em outro lugar que não se paga. Falência ao grupo NSC.

Vamos boicotar esses caras que querem fazer cadastro pra depois ganhar dinheiro em cima…


“É um desafio explicar aos leitores que fazer jornalismo tem um preço”

Sobre a repercussão do sigwall, a jornalista Ingrid dos Santos, editora da plataforma digital do Grupo NSC, me disse que os comentários são tanto de pessoas que ficam desconfortáveis em fazer o cadastro, como outras que entendem que já está sendo cobrado pelas notícias. “Mas apesar desses comentários negativos, a adesão ao cadastro superou bastante nossas expectativas”, diz. “Foi bem maior do que esperávamos”.

Em breve, o Grupo NSC deverá implementar o paywall, aí sim com cobrança pelo acesso, e quando isso acontecer, certamente as reações negativas serão mais frequentes. “É um desafio explicar aos leitores que fazer jornalismo tem um preço e que, se as pessoas querem continuar tendo acesso às notícias, elas precisam pagar por isso”, afirma Ingrid.

Para ela, é uma questão cultural. As pessoas se acostumaram a ter tudo de graça na internet e já se acostumaram a pagar por entretenimento, como Netflix, Spotify, mas se recusam a pagar por jornalismo. “O cenário é muito desafiador”.


Política de acesso para qualificar base de leitores

De fato, o desafio é grande. O leitor ficou mal acostumado e até mimado, como indicam os comentários ao signwall dos veículos do Grupo NSC. Quem sabe, com o acesso fechado para assinantes ou leitores cadastrados desde  o começo do noticiário online, o cenário não seria diferente, com modelos de negócio mais bem definidos. Talvez a crise no jornalismo (financeira, de credibilidade…) nem estaria em pauta.

Lá atrás, fechar o conteúdo pode não ter sido uma opção por se confiar que o mesmo modelo do impresso, baseado na publicidade, funcionaria no digital. Aberto, o site atrai visitantes e gera audiência para entregar ao anunciante – faltou combinar com as redes sociais…

No projeto portal RIC Mais, a defesa que fiz para o acesso ser aberto era outra. Era estratégica para criar a presença digital de um grupo de comunicação sem histórico no meio digital.

Hoje, vejo como essencial fechar o conteúdo e não é somente pela possibilidade de gerar receita com assinaturas. É também uma questão de qualificar o leitor para defender a qualidade do produto. Afinal, de que adianta entregar um número X de acessos se quem está visitando, como os ilustres que criticam o signwall, não contribui para o debate e só leva o pior das redes sociais para dentro dos sites e portais?

Comercialmente, ter uma base qualificada de leitores e ter mais informações sobre eles, pode melhorar as negociações com anunciantes e patrocinadores. Não se tem mais apenas um número, mas um perfil com dados relevantes e até pistas sobre hábitos de consumo.

E o melhor exemplo disso está sendo dado pela Folha de S.Paulo. Em parceria com a Google, o jornal está dando um ano de assinatura digital grátis para professores da rede pública de todo o Brasil. Para assinar, bastar ter uma conta do Google e depois de 12 meses, a assinatura é renovava com desconto permanente de 33%.

Mais do que uma atitude simpática e positiva e com ótimo retorno de mídia, a oferta também é uma maneira de agregar valor à base de assinantes. Ou não é importante um veículo contar com professores entre seus leitores/assinantes? Que outros sites e portais sigam o mesmo caminho.

Folha oferece assinatura digital grátis por 1 ano a professores da rede pública de todo o país

E boa sorte para os colegas do Grupo NSC na implantação do paywall.

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