A primeira campanha eleitoral… há dez anos

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por ALEXANDRE GONÇALVES

Há exatos dez anos, trabalhei na minha primeira e única campanha eleitoral como responsável pelas redes sociais. Depois disso, estive do outro lado, na cobertura das eleições, como já comentei aqui no Primeiro Digital, e não tive nem convites nem interesse de voltar a trabalhar com candidatos. Nunca digo nunca, mas uma experiência foi o suficiente, mesmo que tenha ocorrido no distante mundo digital de 2010, quando o Twitter era a grande mídia social.

Consegui o trabalho de um jeito inusitado. Dois candidatos, do mesmo partido e da mesma região, mas disputando cargos diferentes, contrataram a mesma agência de São Paulo para “cuidar” do Twitter (outras redes eram apenas para constar). Mas esse cuidar entre aspas queria dizer na época usar scripts e criar robôs para seguir e disparar mensagens automáticas com falsas interações com referências ao candidato-contratante.

Aquilo começou a incomodar a mim e a outros amigos e usuários do Twitter. Decidi alertar os candidatos. Fiz uma compilação gigante com tweets publicados pelos robôs (hoje os fakes tem foto, nome e até bio; na época eram só perfis com o avatar com o ovo padrão do Twitter) e outra com comentários criticando as ações.

Montei um e-mail e mandei para uma amiga próxima ao partido e aos candidatos. Enfatizei que a prática estava queimando o filme das candidaturas e que isso realmente prejudicaria o engajamento na campanha.

Não fiz o que fiz como uma pró-atividade, de alguém que viu uma oportunidade de trabalho  (até já tinha minha empresa de conteúdo na época). Fiz pela irritação, pelo incômodo de ver o potencial da minha rede social preferida ser mal utilizado. 

Dias depois, ela me avisa que os coordenadores de comunicação das campanhas queriam falar comigo sobre meu “dossiê”. Saí das reuniões realizadas posteriormente com cada uma das coordenações com dois pedidos de orçamentos para que fosse o responsável pelas redes sociais. 

Uma das campanhas gostou da proposta, aceitou o orçamento que propus para cinco meses e assim começou meu trabalho.

O Twitter e suas possibilidades

O candidato que atendi não se elegeu. Trabalhei e me dediquei para isso, mas naquela época, assim como hoje, como meu amigo Gastão Cassel escreveu no artigo publicado aqui no Primeiro Digital, rede social não elege ninguém. Outros fatores, no mundo offline são muito mais decisivos. Você abrir brecha para concorrentes no seu reduto eleitoral, por exemplo, pode ser um erro fatal. 

Ainda assim, a experiência valeu a pena. A campanha me permitiu explorar o Twitter e todas as suas possibilidades. Pude contribuir com ações inovadoras na época como a promoção de Twitcams (quem lembra?) que seria o equivalente das lives de hoje no Instagram. Foi o único candidato a realizar transmissões do tipo para apresentar suas propostas, mas também receber perguntas e respondê-las ao vivo. 

O envolvimento na campanha me levou até a produzir um pequeno manual de uso do Twitter, que posteriormente editei e disponibilizei no meu antigo blog. Também emplaquei algumas hashtags como marcas da campanha e para eventos nacionais em Florianópolis que reuniram integrantes da chapa que disputou a eleição presidencial daquele ano.

Memes e dancinhas não vão conquistar votos

Dez anos depois, e passadas outras eleições presidenciais, estaduais e municipais, me vejo mais atraído pela cobertura jornalística do que pela comunicação digital das campanhas.

Entendo que as pessoas estão na internet e nossa vida é cada vez mais digital – os acessos ao e-commerce, por exemplo, passam fácil da casa do 1,2 bilhão -, mas um meme ou uma dancinha vão humanizar o candidato a ponto de conquistar o voto dos eleitores?

Penso nisso sempre que um candidato me adiciona como amigo no Facebook um mês antes da eleição ou quando uma candidata que nunca vimos na vida manda uma mensagem para o WhatsApp da minha esposa. É assim que vão ganhar nossos votos?

É desanimador. Não me empolga a forma ou os rumos que as campanhas tomam nas redes sociais – e nem vou entrar em detalhes sobre disseminação de fake news e disparos ilegais de mensagens. 

Tanto os coordenadores de campanhas quanto os profissionais de mídia digital precisam encontrar o meio do caminho. Como em outros segmentos, a visibilidade deve ser conquistada de forma natural e espontânea, adequando meio e produto. 

Expor no TikTok, por exemplo, um candidato ou candidata que tem zero jogo de cintura não me parece uma boa ideia para ampliar o alcance e atingir públicos de outras faixas-etárias. A não ser que pagar mico e parecer bobo seja parte da estratégia da maioria dos marketeiros. E nesse caso, fico feliz com minha decisão de ter no currículo somente a campanha de dez anos atrás.

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