Por que você assina Netflix e outros serviços de streaming, mas não quer pagar para ler notícias?

derrubar paywall
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por ALEXANDRE GONÇALVES

No dia 25 de abril de 2020, a jornalista Tatiana Vasconcellos, âncora do ótimo Estúdio CBN-SP, compartilhou o link de uma notícia do site da Folha de S.Paulo no Twitter. Uma seguidora, em tom indignado, respondeu o tweet dizendo “matéria fechada afee” e recebeu de Tatiana uma pergunta: “Você assina Netflix? :)”. A seguidora rebateu dizendo que assinava um jornal e não tinha como assinar todos. A âncora, por sua vez, respondeu: “O que quero dizer é que jornalismo bem feito custa”.

Curti o tweet da Tatiana na época e deixei anotado. E o resgatei agora, meses depois, porque o post mais acessado do Primeiro Digital desde o mês de 1º de janeiro de 2020 é o que fala da decisão de sites e portais de notícias derrubar o paywall e liberar o acesso para conteúdos sobre o coronavírus, publicado em 13 de março. Os dados de audiência do blog também mostraram a origem de acessos: buscas no Google por “derrubar paywall”. É o segundo resultado na primeira página, atrás de um post do site Meio Bit, publicado em 2014, que diz ensinar “como vencer a usura da Folha, Globo e outros sites mesquinhos”.

De certo, as “dicas” do Meio Bit estão desatualizadas. E quem chegou ao post do Primeiro Digital não encontrou um tutorial para enganar o sistema de assinaturas dos sites. Pelo contrário, encontrou o que acredito ser a melhor forma de tratar o acesso ao conteúdo. Há momentos, como numa pandemia, em que derrubar o paywall traz benefícios para os veículos – maior audiência, mais impressões de anúncios, mais credibilidade, mais engajamento e mais chances de atrair novos assinantes.

Isso deixaria contentes a seguidora da @tavasconcellos e muitos outros “amigos internautas”. Mas não resolveria o “bloqueio” que o paywall provoca na mente de quem entende o pagamento de serviços como Netflix, Prime Vídeo, Globoplay e já conta nos dedos a chegada de novos streamings (Disney Plus e HBO Max), mas se recusa a pagar, mesmo que seja um valor irrisório, para ler notícias na internet. Até quando é solicitado um cadastro para acesso grátis chove reclamação.

Por isso, a resposta para a pergunta no título deste post é aquela que vale 1 milhão de dólares. Mas na minha opinião, tudo é uma questão de hábito de consumo. O jornalismo digital começou de graça, o público se acostumou assim e viu nisso a grande vantagem de ler seu jornal na internet. Compreensível a estratégia (ou a falta de uma estratégia) dos veículos. Era tudo mato, como se diz, e as oportunidades e formas de rentabilizar sites de notícias não eram muito evidentes no começo da internet – e ainda pode-se dizer mesmo hoje muitos falham e não encontram o melhor caminho. 

Já a Netflix, chegou com o modelo de negócio definido: pague para ver. Com preço acessível e um catálogo atrativo de séries e filmes, assinar o serviço se tornou vantajoso até para quem era adepto da pirataria (ou você assistiu Lost só quando passou na madrugada da Globo?). Ou seja, a Netflix ajudou tanto a mudar quanto a criar novos hábitos.

Como se vê, não é adotando o “pague para ler” que os sites de notícias serão o Netflix. Se lá fora jornais como o New York Times consolidam suas operações digitais, aqui no Brasil converter quem burla o paywall em assinante não é apenas uma questão de colocar um cadeado. Os ataques ao jornalismo e aos jornalistas, que se intensificaram nos últimos anos, também influenciam e contribuem para propagar a ideia de que não tem que pagar nada. Espalham hashtags nas redes sociais (#jornalixo, por exemplo) para desqualificar veículos sérios e valorizar sites de fake news. 

Ajudar a financiar o jornalismo profissional é uma forma de combater os ataques. Mas voltamos ao ponto central da questão: por que nem assim, por um motivo relevante, até quem é mais esclarecido nem cogita se tornar assinante? Ou quantos deixaram de ser assinantes por “já liam tudo na internet”? 

Aos sites de notícias, para romper a barreira com os não-assinantes resta o desafio de entender profundamente qual o loop de hábito de consumo de notícias das pessoas que estão na internet. O que motiva a busca por notícias, qual a rotina seguem e que recompensas esperam obter ao fazer uma assinatura digital? Será só preço? 

E mais do que olhar para fora, os sites precisam também para dentro e ter uma visão criteriosa do conteúdo que é produzido. Ou faz sentido replicar no site a foto do gatinho que todo mundo já viu nas redes sociais e ainda querer que alguém pague para acessar isso? Jornalismo bem feito precisa de financiamento, como defendeu corretamente a Tatiana Vasconcellos na resposta para sua seguidora no Twitter, mas também precisa de bom senso e de foco no que é de fato relevante. 


P.S.: Assino serviços de streaming, contribuo com canais no YouTube e ganhei uma assinatura da Folha. E vocês? 

2 comentários sobre “Por que você assina Netflix e outros serviços de streaming, mas não quer pagar para ler notícias?

  1. Cesar Valente

    Têm um certo peso nessa “resistência”, a imagem que os serviços de assinaturas dos jornais criaram. Quem já tentou alguma vez cancelar uma assinatura do DC ou da Veja (tempos atrás, quando alguém ainda assinava jornais e revistas) e se incomodou com cobranças indevidas, mau atendimento, dificuldade para concluir a tarefa e, depois de cancelado, teve que enfrentar o assédio do telemarketing, deve ter dificuldade para acreditar que a mesma empresa melhorou, num passe de mágica, seus procedimentos e que comprar e cancelar o serviço online seja fácil e seguro. Mas, é claro, este é um problema pontual, localizado, que talvez não atinja muita gente e que talvez por isso não se veja nenhum esforço para melhorar essa imagem residual.

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