Coronavírus: Carta dos profissionais da saúde contra a infodemia nas redes sociais

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por ALEXANDRE GONÇALVES

“Neste momento, além da pandemia da Covid-19, enfrentamos também uma infodemia global, com desinformações viralizando nas redes sociais e ameaçando vidas ao redor do mundo”. Assim começa a carta assinada por profissionais da saúde do Brasil e de outros 16 países e que tem como destinatários os executivos das principais redes sociais do mundo. O documento, divulgado na plataforma Avaaz, cobra ações mais severas para conter a circulação de informações falsas sobre o coronavírus.

Leia a seguir a íntegra da carta que está recebendo assinaturas de profissionais da saúde.

Profissionais de saúde denunciam a infodemia nas redes sociais

Como médicos(as), enfermeiros(as) e especialistas em saúde do mundo todo, estamos aqui para fazer uma denúncia. Nosso trabalho é salvar vidas. Mas neste momento, além da pandemia da Covid-19, enfrentamos também uma infodemia global, com desinformações viralizando nas redes sociais e ameaçando vidas ao redor do mundo.

Boatos afirmando que a cocaína era uma cura ou que a Covid-19 tivesse sido desenvolvida como uma arma biológica pela China ou pelos EUA se espalharam mais rápido que o próprio vírus. As empresas de tecnologia tentaram agir, tirando alguns conteúdos do ar depois de serem denunciados e permitindo que a Organização Mundial da Saúde fizesse anúncios gratuitamente.

Mas esses esforços estão longe de serem o bastante.

O tsunami de conteúdo falso e enganoso sobre o Coronavírus não é um surto isolado de desinformação e faz parte de uma praga mundial. No Facebook, vimos alegações de que o dióxido de cloro ajuda as pessoas sofrendo de autismo e câncer; que milhões de cidadãos dos EUA tinham sido infectados com o “vírus do câncer” por meio da vacina contra a pólio; que o TDAH tinha sido “inventado pela grande indústria farmacêutica”. E a lista continua…

Essas mentiras representam um problema sério, promovem curas falsas e incentivam o medo de vacinas e dos tratamentos eficazes. E elas viajam rápido: um post do Facebook que dizia que o gengibre era 10 mil vezes mais eficaz no tratamento do câncer que a quimioterapia foi curtido, compartilhado e comentado quase 30 mil vezes.

É por isso que hoje estamos apelando aos gigantes da tecnologia para que tomem imediatamente uma medida em conjunto para acabar com o fluxo de desinformação sobre saúde e a crise de saúde pública que este fluxo causou.

Foto: Divulgação Avaaz

Trabalhamos em hospitais, clínicas e departamentos de saúde públicos no mundo inteiro e estamos bastante familiarizados com os impactos reais desta infodemia. Somos nós que cuidamos dos bebês hospitalizados por sarampo, uma doença completamente prevenível, que já havia sido eliminada em países como os EUA, mas que agora ressurge graças, principalmente, às fake news anti-vacinação.

Mas além de nós profissionais de saúde, lidarmos com a repercussão dessas mentiras, somos também frequentemente culpabilizados por elas. Dessa forma, a desinformação afeta a moral de uma profissão estressante e os custos financeiros para combatê-la são absorvidos por orçamentos apertados.

O diagnóstico é sombrio, então o que pode ser feito?

As plataformas de redes sociais devem começar com duas medidas óbvias e urgentes.

Em primeiro lugar, elas devem corrigir o erro nas desinformações sobre saúde. Para isso, devem alertar e notificar cada pessoa que viu ou interagiu com desinformação sobre saúde em suas plataformas e compartilhar uma correção bem elaborada preparada por verificadores de fatos independentes — esta medida comprovadamente ajuda a prevenir os usuários de acreditarem em mentiras perigosas. Plataformas como o Facebook já começaram a rotular desinformação, mas não tomam nenhuma medida para alertar os milhões de pessoas que possam ter visto o post antes de ele ter sido analisado e rotulado. Por isso, pedimos urgentemente que o Facebook alerte TODOS os usuários que tenham sido vítimas deste conteúdo, o que exige um passo além do que apenas rotular o conteúdo falso: as plataformas devem fornecer correções retroativamente.

Em segundo lugar, as plataformas devem desintoxicar o algoritmo que decide o conteúdo que as pessoas vão ver. Isso quer dizer que o alcance das mentiras nocivas, assim como dos grupos e páginas que as compartilham, serão reduzidos no feed de notícias dos usuários, ao invés de amplificados. Os algoritmos de recomendação de conteúdo devem remover  a desinformação nociva e as páginas e canais de quem promove esse tipo de conteúdo. Atualmente, esses algoritmos priorizam manter os usuários online ao invés de proteger a sua saúde, diminuindo, assim, o bem-estar da humanidade.

As empresas de tecnologia que facilitaram a disseminação de ideias e que lucraram com ela tem o poder e a responsabilidade de conter a disseminação mortal de desinformação e fazer com que as redes sociais parem de adoecer as nossas comunidades. Para salvar vidas e restaurar a confiança em cuidados de saúde baseados na ciência, os gigantes da tecnologia devem parar de fornecer oxigênio às mentiras, fraudes e fantasias que ameaçam toda a humanidade.

Carta publicada na plataforma Avaaz.


Sobre infodemia e desinformação:

Podcast: Fake news, pandemia e infodemia

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