Chega de financiar quem produz e espalha fake news

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por ALEXANDRE GONÇALVES

O que não falta na internet é site e blog criados exclusivamente com o objetivo de gerar lucro com anúncios tipo os do Google AdSense e de programas de afiliados. Não é uma prática nova, mas é também o que está na base financeira da maioria dos canais que produzem e compartilham fake news no Brasil e no mundo.

Como geralmente os anúncios são veiculados de modo automático, conforme configuração do proprietário ou da agência que compra parte do inventário de audiência, é sempre uma tarefa complicada barra esse tipo de ação. Mas é possível, como prova um movimento que atua para contatar anunciantes sobre a presença das marcas em sites e blogs de notícias falsas. E os resultados da ação já são vistos aqui no Brasil.

O assunto é tema de reportagem do El País:

Movimento expõe empresas do Brasil que financiam, via anúncios, sites de extrema direita e notícias falsas

Inspirada em modelo dos EUA, versão brasileira da conta Sleeping Giants alerta companhias sobre publicidade em páginas que ajudam a propagar a desinformação. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine retiram propaganda

E em pouco tempo de atuação no Brasil, o @slpng_giants_pt já pisou em calos e prestou um duplo serviço:  abriu os olhos de um grande anunciante (no caso, o Brasil do Brasil) e mostrou a proximidade que os criadores de fake news têm com o governo federal.

Entende o caso.

O @slpng_giants_pt apontou para o BB que os anúncios do banco estavam sendo veiculados e, por tabela, gerando receita, para sites propagadores de notícias falsas.

O banco, assim como outras empresas já fizeram, retornou ao Sleeping Giants dizendo estar ciente e que iria tomar as providências. Escreveu o BB no Twitter:

Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado. Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews.

 

“Contornar a situação”

A turma que compactua com a proliferação de fake news não gostou da medida adotada pelo Banco do Brasil e foram fazer o quê? Foram se queixar ao chefe da Comunicação do governo federal, o Fabio Wajngarten.

Wajngarten respondeu:

“Estamos cientes da importância do jornalismo independente. Nem toda a comunicação do que é público depende de nós, mas já estamos contornando a situação. Agradecemos pelo retorno e pode contar com o governo na defesa da liberdade de expressão”.

Uma resposta que gerou alguns questionamentos, como apontou a colunista Mônica Bergamo, no Twitter:

“Como será que Fabio Wajngarten está ‘contornando a situação’? Está falando para o BB anunciar de novo no referido site já vetado pelo banco? Como se dará esse ‘contorno’?”

Flávio Wajngarten não respondeu a colunista da Folha e da BandNews FM, mas atacou o trabalho do Sleeping Giants, com argumentos questionáveis, distorcidos e que falam para o público de sempre, chamados de “jornais independentes”, mas que não passam de canais forjados na antiprática do jornalismo sério.

A conferir se o contorno será feito. Mas desde já, que fique o exemplo do @slpng_giants_pt: chega de financiar (às vezes até sem saber) quem produz e espalha fake news. Viu anúncios em sites? Denuncie! Mande e-mail e mensagens pelas redes sociais alertando sobre a exibição de anúncios em sites nada confiáveis.

Leia a reportagem do El País para conhecer mais sobre o movimento Sleeping Giants Brasil.


E por falar em fake news…

No fim de semana, circularam no Twitter posts mentirosos a respeito da Covid-19 e o uso da cloroquina. A mesma prática de sempre: a mesma mensagem replicada por inúmeros perfis (a maioria fakes e robôs) para gerar volume, enganar os menos avisados e, pior, ajudar na construção das narrativas que negam a ciência no combate ao novo coronavírus.

Compartilhei prints no meu Facebook e fiquei contente de ver que não estou sozinho na indignação diante deste tipo de prática. Só a minha postagem registrou até o momento (quarta, 20 de maio, 18h) 242 compartilhamentos. E para ajudar no combate à propagação desse tipo de lixo (não vou chamar de conteúdo…) acrescentei links dos serviços de checagem (Projeto Comprova, Aos Fatos e Boatos.org), além da carta dos profissionais da saúde contra a infodemia e a desinformação (leia aqui).

É difícil, mas não é impossível não estar alerta e alertar sobre as notícias falsas.

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